I
Sem querer dizer o tempo todo o que sentia sobre isso ou aquilo outro, deixava dentro de si cada uma de suas tantas e amarguradas angústias. As colecionava junto a seus botões de roupas caídos, das dela e das dos outros. Tinha especial apreço por um de dois furos que encontrara aos oito anos, mergulhado na lama de uma chuva forte que havia caído no quintal de sua avó (que na verdade nenhum parentesco com ela possuía).
Não sabia ao certo a cor do botão. Na luz parecia vermelho, no escuro, preto, na água, um vinho talvez. Um vinho descascado, saudoso, que se achava descombinado com aquele azul líquido tão diferente dos fios que o prendiam à roupa sabe-se-lá-de-quem.
Foi de cômodo em cômodo, abrindo os armários e gavetas, dedilhando as roupas, procurando um espaço vazio entre os botões dos ternos, casacos, vestidos, calças, pijamas, travesseiros.
Nenhuma peça parecia sentir falta de um botão às vezes preto, às vezes vermelho e, se molhado, vinho.
Andou pelas ruas observando as roupas que por ela passavam apressadas, tentando perceber a falta de um botão. Até fazer vinte e dois anos, e a idade lhe dizer que aquela era uma atividade infantil e sem motivo, por mais que fosse completo segredo.
Guardou a caixa envernizada com sua coleção em cima do armário e lá a deixou, perdendo o brilho até ser completamente fosca.
II
Clara - não era esse seu nome, mas a chamavam assim - que tinha a pele muito branca e o cabelo o mais loiro possível, teve uma filha branca como ela aos 48 anos. Clarinha, como havia de ser, era apaixonada pela mãe. Pelo pai também, mas nem tanto, já que esse aparecia vez ou outra dizendo trabalhar muito, e lhe dava um presente quando ela queria um abraço. E quando a abraçava, dava tapinhas em suas costas. Ela odiava os tapinhas. Preferia que ele a apertasse até os ossos estalarem, como sua mãe fazia ao acordar.
III
Clarinha, em seu aniversário de vinte e cinco anos, adotou um menino que nasceu naquele mesmo dia.
Anos depois, no último inverno que passaram na velha casa, João Pedro brincava no quarto que fora de Clara, antes dela se mudar para um menor, a fim de dar mais espaço para o neto.
Atacava o armário com pedaços de uma borracha que há pouco despedaçara, quando um dos pedaços caiu em cima do armário.
João subiu em uma cadeira e, nas pontas dos pés, se apoiando no armário, viu a velha caixa de madeira ao lado de sua borracha partida.
Ao ver os botões, lembrou do casaco preferido de sua avó, que agora ficava dentro da gaveta por não fechar direito. (Clara tinha mania de abandonar o que gostava quando as coisas se tornavam incompletas).
Horas depois João se aproximou da cama da vó e ergueu o casaco, esperando ansioso que um sorriso de surpresa e felicidade se desenhasse no rosto pálido de Clara. Ao invés do sorriso, porém não com menos alegria, Clara deixou suas lágrimas contidas caírem, tirando do armário que havia em si, as angústias de menina.
Reconheceu imediatamente o botão vermelho.
Pois não enxergava no escuro.
E não usava casaco embaixo d’água.