16 Janeiro, 2010

O Botão

I

Sem querer dizer o tempo todo o que sentia sobre isso ou aquilo outro, deixava dentro de si cada uma de suas tantas e amarguradas angústias. As colecionava junto a seus botões de roupas caídos, das dela e das dos outros. Tinha especial apreço por um de dois furos que encontrara aos oito anos, mergulhado na lama de uma chuva forte que havia caído no quintal de sua avó (que na verdade nenhum parentesco com ela possuía).

Não sabia ao certo a cor do botão. Na luz parecia vermelho, no escuro, preto, na água, um vinho talvez. Um vinho descascado, saudoso, que se achava descombinado com aquele azul líquido tão diferente dos fios que o prendiam à roupa sabe-se-lá-de-quem.

Foi de cômodo em cômodo, abrindo os armários e gavetas, dedilhando as roupas, procurando um espaço vazio entre os botões dos ternos, casacos, vestidos, calças, pijamas, travesseiros.

Nenhuma peça parecia sentir falta de um botão às vezes preto, às vezes vermelho e, se molhado, vinho.

Andou pelas ruas observando as roupas que por ela passavam apressadas, tentando perceber a falta de um botão. Até fazer vinte e dois anos, e a idade lhe dizer que aquela era uma atividade infantil e sem motivo, por mais que fosse completo segredo.

Guardou a caixa envernizada com sua coleção em cima do armário e lá a deixou, perdendo o brilho até ser completamente fosca.

II

Clara - não era esse seu nome, mas a chamavam assim - que tinha a pele muito branca e o cabelo o mais loiro possível, teve uma filha branca como ela aos 48 anos. Clarinha, como havia de ser, era apaixonada pela mãe. Pelo pai também, mas nem tanto, já que esse aparecia vez ou outra dizendo trabalhar muito, e lhe dava um presente quando ela queria um abraço. E quando a abraçava, dava tapinhas em suas costas. Ela odiava os tapinhas. Preferia que ele a apertasse até os ossos estalarem, como sua mãe fazia ao acordar.

III

Clarinha, em seu aniversário de vinte e cinco anos, adotou um menino que nasceu naquele mesmo dia.
Anos depois, no último inverno que passaram na velha casa, João Pedro brincava no quarto que fora de Clara, antes dela se mudar para um menor, a fim de dar mais espaço para o neto.
Atacava o armário com pedaços de uma borracha que há pouco despedaçara, quando um dos pedaços caiu em cima do armário.

João subiu em uma cadeira e, nas pontas dos pés, se apoiando no armário, viu a velha caixa de madeira ao lado de sua borracha partida.
Ao ver os botões, lembrou do casaco preferido de sua avó, que agora ficava dentro da gaveta por não fechar direito. (Clara tinha mania de abandonar o que gostava quando as coisas se tornavam incompletas).

Horas depois João se aproximou da cama da vó e ergueu o casaco, esperando ansioso que um sorriso de surpresa e felicidade se desenhasse no rosto pálido de Clara. Ao invés do sorriso, porém não com menos alegria, Clara deixou suas lágrimas contidas caírem, tirando do armário que havia em si, as angústias de menina.

Reconheceu imediatamente o botão vermelho.

Pois não enxergava no escuro.

E não usava casaco embaixo d’água.

06 Janeiro, 2010

Perdoem a ausência de palavras.
Tenho tido certa dificuldade em organizar meus pensamentos.

O farei assim que possível.

Saudades.

12 Dezembro, 2009

Pela veracidade das palavras
Jamais mentiria.

27 Outubro, 2009

Diz

Como as vestes deixam teu corpo?
De que jeito elas caem no chão?
Ao se despir, por onde passam tuas mãos, teus dedos?
E a gola ao te tocar a boca
Sentem falta os lábios teus?
Que parte se mostra primeiro?
Por onde respiras, por onde foges?
Pra onde vais?
Se não estarei, por quê vais?
Deixa teus pés livres
Teu corpo refletido no espelho que te julgas
Para quem se aprontas se não para mim?

Invejo o ar que te cerca
O pano que te cobre
O calor que te abraça.


29 de março de 2009.

12 Setembro, 2009

Texto-rascunho para o curta 880, de Natasha Valente.

Estou com fome. Aquela fome de nada exato, de tudo.
E pra acompanhar a minha fome de todas as coisas – que na mais ridícula verdade se resumem a uma só – quero beber dos teus lábios.
Desses dois pedaços de fina carne que ao tempo de duas gestações completas e mais um pouco, me puseram nos limites de minha plenitude.
Não digo isso porque penso em você. Mas por pensar na solidão de teus atos, de teu corpo que agora se desnuda apenas para o azulejo do banheiro, para o espelho rachado do teu armário.
Ou, em minhas reflexões mais loucas e infortúnias, para outro corpo que se desnuda por ti sem significar mais que uns suspiros e uma pele suada.
Tuas mãos que só se aquecem ao segurar uma xícara com um líquido qualquer que, mesmo em fervura, jamais alcançaria o calor que te fiz sentir em tantas noites viradas, tardes e manhãs.
Como pensaria em você se sinto que fui e continuarei sendo, seja por uns anos, seja até o fim dos dias, o que te faz ser uma mulher? Se sentir como uma.
Digo isso porque o mesmo acontece comigo.
E a gente sabe quando sente algo igual, apesar das distâncias incalculáveis.

Me impressiona a falta de graça, a euforia perdida das novidades, das boas notícias.

Às vezes grito teu nome. Só pra ver se tiro esse gosto ruim da garganta, dessa alma que ainda sente as tuas unhas finas arranhando cada centímetro.

A gente nunca vai morrer. Almas gêmeas, pares perfeitos, amores de uma vida, nunca morrem.

Estúpidos são os ex-eternos amantes que dizem não sentir saudade...

10 Agosto, 2009

Eu não direi nada
Calarei a mente e a voz
Necessidades fiquem em segundo plano
Agora não há espaço para mim
Ou pro que penso, pro que desejo
Não há espaço para gritos, desavenças
É hora de se doar, variar um pouco

Um pouco

Mais.

27 Julho, 2009

Misser

I miss your lips
I miss biting you cheeks softly
And nailing every single nail of my fingers on your back
I miss the way you breathe
And even more the way your breath accelerates when I kiss your neck ou somewhere else
Anywhere else
I miss our skins finding themselves
And when my hands walk through your beautiful hair

I miss your smile so much
And the way you laugh when I tickle your waist
I miss when you tell me to stop
And even more when you beg for it
I miss hugging you and promising I won't do it again
I miss breaking my promises

And how I miss watching you sleep...
The way you look peaceful as a child
I miss when you wake in the middle of the night and put your arms around me
I miss your heat, your smell, the way you sing, your voice

I miss everything

All I am is just...

missing.

24 Junho, 2009

Ao amor

É inútil dizer que te amo mais que alguma coisa; pessoa, lugar, doce, música... Dizer que te amo mais do que já amei em um dia qualquer.

Se fosse possível encontrar algo amado até o limite onde começa o meu maior amor, então eu não te amaria de forma única ou maior que todo o possível. Amaria a partir do talo de outro amor, do seu ponto final. Até essa superfície ou fundo seria igualmente o mesmo amor. Mas por você, o caminho do fundo até a superfície não existe. Tal como são inexistentes essas duas partes.

Por aqui, neste corpo que abriga esta alma que ama, o amor alcança as estrelas e só pára no caminho para surpreendê-las dizendo que não se sente cansado e vai continuar subindo. Ou vai para os lados, para frente. Afinal, todas as direções são infinitas.

Nenhum dia com você é qualquer. Todos os segundos, um por um, em sua duração menor que um piscar, carregam uma magia que é só deles, só sua. Enquanto os minutos ao longe parecem segundos que não têm vontade de acabar. São lentos, frios. Duram a eternidade do amor que sinto.

Não fosse por este amor ter a coragem de ultrapassar a própria eternidade.


Eu te amo.

Não mais que nada.

Apenas te amo.

Incomparavelmente.

12 Junho, 2009

Agora entendo o claro motivo que leva pessoas a buscarem terapeutas.

07 Junho, 2009

Memorial



Tua voz

Palavras em tom de criança
Com leveza adentram meus ouvidos
Ao canto ardem o coração
Soltam pés que desejam não pisar em solo
Gelado tal é, e mais quando distancia

Meu ouvir

Atento a todo instante
Ergue em tentativa de absorver além
Quando tua vergonha te enrubesce
Afastando meu desatino
Debalde rogo para que prossigas

Teus olhos

Tomados de banho em mel escurecido
Alvorecem ao brilhar a grande estrela
Ou no prantear que por vezes te acompanha
E o mergulham em vermelha brancura
Fazendo caber a eles meus lábios sedentos

Meu ver

Abençoado é ao mirar-te
Afortuna-me sem obstar
Posto que angustiante seja
O anseio é por fitar eternamente
Seja usual acastanhado ou tétrico escarlate.